terça-feira, fevereiro 07, 2006

Maomé e a Liberdade


Nota sobre o tema da crónica da semana passada: um tribunal acolheu favoravelmente a providência cautelar interposta pela Associação Solidariedade Imigrante, ordenando a suspensão das demolições de 22 barracas na Azinhaga dos Besouros, na Pontinha. Estas 22 famílias inscritas no PER (ao todo cerca de uma centena de pessoas) estão, por agora, a salvo da “lei do bulldozer”; e a Câmara da Amadora terá de assumir as responsabilidades sociais no seu realojamento.

Hoje gostaria de abordar a crise aberta pelas caricaturas de Maomé publicadas, há mais de quatro meses, num jornal dinamarquês e recentemente reproduzidas por vários jornais europeus e não só… A minha primeira curiosidade é saber quem as divulgou no mundo muçulmano, precisamente agora.
Não está em causa, evidentemente, a liberdade de expressão e de crítica, sob todas as formas, incluindo a sátira a que nenhuma pessoa ou instituição civil, militar ou religiosa pode estar imune. A separação da(s) Igreja(s) do Estado laico é o fundamento da modernidade desde a Revolução Francesa e, ao mesmo tempo, o garante da igualdade entre as diversas religiões e da liberdade de propaganda religiosa ou anti-religiosa. Recordo, a este propósito, “A Velhice do Padre Eterno”, de Guerra Junqueiro, a que consegui ter acesso ainda no tempo da ditadura.
Mas a liberdade de expressão pressupõe obrigatoriamente a responsabilidade de cada autor, bem como a sua exposição à crítica e à opinião contraditória, inclusive sob a forma de manifestações de repúdio. É óbvio que a publicação das caricaturas de Maomé com uma bomba no turbante constitui uma provocação intolerável ao mundo muçulmano, inclusive para os milhões de cidadãos residentes e nacionais de países europeus que professam esta religião. Associar Maomé e o Islão ao terrorismo é não apenas estúpido, mas absolutamente criminoso. Os Bin Laden e todos os fundamentalistas só podem agradecer esta bênção que lhes dá uma dose de popularidade extra.
Imaginemos o que seria associar a imagem de Cristo a mísseis e outras armas de destruição maciça, só porque um fanático como Bush se diz cristão… Ou publicar imagens do Papa, acompanhado de instrumentos de tortura da Inquisição? Evidentemente, nenhuma forma de censura seria admissível, mas não faltariam manifestações de repúdio. Aliás, alguns paladinos da liberdade de expressão (em casa alheia) estiveram calados que nem ratos quando, há uma década, José Saramago foi alvo de censura e de discriminação por parte de Sousa Lara, obscuro secretário de estado de Cavaco Silva. E o então futuro Nobel da Literatura, no excelente ensaio “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, limitava-se a ficcionar o relacionamento humano entre Jesus e Maria Madalena - tema que, entretanto, ganhou foros de actualidade na literatura mundial, sem qualquer escândalo.
Indignam-se diversos analistas com a ausência de liberdades em muitos países onde têm decorrido manifestações de protesto dos muçulmanos. Não basta constatar o óbvio, a começar pela fusão do Estado com o clero. É bom não esquecer que, até há poucas décadas, estas sociedades eram colónias europeias e que o seu desenvolvimento foi truncado quando ainda se encontravam na Idade Média. Após as independências houve progressos no sentido de laicizar os jovens Estados, sob a direcção de nacionalismos de esquerda - como o de Nasser, no Egipto, a FLN na Argélia ou o partido Baas, no Iraque e na Síria. Tal não aconteceu com aliados fiéis dos EUA, em especial na Arábia Saudita.
No combate aos regimes árabes progressistas, governos ocidentais fomentaram o fundamentalismo religioso de extrema-direita: a Irmandade Muçulmana, os talibans e o próprio Bin Laden; até Israel incentivou discretamente o Hamas para enfraquecer a OLP e a liderança de Yasser Arafat. Agora colhem as tempestades dos ventos que semearam, colocando em risco o futuro dos povos do Médio Oriente e a própria paz mundial. E alimentando provocações como as caricaturas de Maomé, deitam mais gasolina na fogueira dos fundamentalistas. Não por acaso, os skin-heads estão muito activos em contra-manifestações na Dinamarca, na Noruega e um pouco por toda a Europa.
Não há lugar para ingenuidades nem coincidências. Quando o Irão se tornou o alvo da nova cruzada de Bush e dos novos “Cavaleiros do Apocalipse”, como Putin e Angela Merkel, estas provocações servem como uma luva para atiçar a fúria das multidões e dar força os “ayatollahs”, alimentando a histeria bélica. Cabe a todos os povos erguerem-se contra esta cabala. É este o sentido da jornada Mundial contra a guerra no próximo dia 18 de Março, terceiro aniversário da invasão do Iraque.

Alberto Matos – Crónica semanal na Rádio Pax – 07/02/2006

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